segunda-feira, 28 de julho de 2008
Convergências e controvérsias entre Brasil e Argentina
Visitando Buenos Aires, fiquei encantado com a cidade, seu conjunto arquitetônico, os grandes e múltiplos parques. Não se pode deixar de concluir que ela é eminentemente européia na sua expressão física e no biotipo da maioria dos seus habitantes. A arquitetura lembra muito, e certamente, é cópia da de Paris. Os sobrados, solares, verdadeiros palácios, são encimados por ardósia ( ou algum material que a ela se assemelhe). De qualquer forma, isso significa um apogeu econômico quando foram construídos. A guia nos informou que muitas famílias, viajando à Europa, no século XIX, Paris, Barcelona, cidades da Itália, de lá tiraram inspiração para aquela arquitetura que dá às avenidas um ar de “ boulevard “ , ainda enriquecida pela presença de inumeráveis plátanos. Há o famoso café Tortoni, do 1858, que é um dos pontos que não se pode deixar de visitar, e nesse período de férias, temos que esperar na fila ( e no frio) para podermos ter acesso – mas entrando lá, vemos que vale a pena ter esperado.
O povo argentino é conhecido pelo quase fanatismo relacionado ao futebol – e daí vêm as nossas controvérsias. A guia disse que não poderia deixar de nos mostrar o estádio do Bocca Junior, que está ao lado do bairro ocupado pelos italianos imigrantes, onde Maradona é rei. Na área chamada “Caminito” há uma concentração das antigas moradias ocupadas por eles e que hoje, todas pintadas e coloridas ( é um pequeno Pelourinho), são apresentadas como um dos “points” turísticos.
De qualquer forma, o argentino – pelo menos o que vi em Buenos Aires – tem um espírito de reivindicação que nos faz inveja. Todos os dias havia alguma manifestação, seja na Casa Rosada como no Congresso, alem de manifestações pelas ruas e avenidas.
Na Praça de Maio ocupa um lugar de destaque a Catedral que tem como Padroeiro a própria Santíssima Trindade. Lá encontra-se o mausoléu de San Martin, o herói libertador da Pátria. Ele, em 25 de maio de 1810, já elaborou os primeiros passos para a independência, pois o povo não aceitava ficar sob o jugo de Napoleão que dominava a Espanha – diziam que já não aceitavam um rei espanhol e muito menos, agora, um francês. As idéias libertárias se consolidaram no dia 9 de julho de 1916 – é um dia de feriado e corresponde ao nosso 7 de Setembro. Mas estranhei por não presenciar desfiles e paradas militares. Mas me responderam que como o povo já está muito desiludido com os políticos, não haveria público para aplaudir essas festas cívicas – por isso, o dia é apenas um feriado nacional.
Perguntando sobre qual o título mariano que prevalece na cidade e no país, fui informado sobre a devoção a Nossa Senhora de Lujan, que fica a uns 70 km fora de Buenos Aires e que é o santuário nacional ( como aqui é Aparecida).
Apesar das inevitáveis divergências no futebol, há algo muito em comum entre esse país e o Brasil,na origem dessa devoção. E fui lá, com minha mãe, para conhecer esse santuário
A história está contada num grande painel localizado ao lado do altar-mor na basílica, que é neo-gótica e que imita, em proporções bem menores, a Notre Dame de Paris- foi construída em 1896.
Tudo começou em 1630, quando um fazendeiro português, que lá morava, quis ter na sua casa de campo uma imagem de Nossa Senhora. Nessa época estava em voga a confecção de imagem em terracota em S. Paulo. Há várias imagens desse material e mais ou menos nesse estilo, nessa época. A maioria veio de Portugal no século XVII. Mas, aos poucos, os artistas surgiram no Brasil Temos os grandes representantes dessa época que são Frei Agostinho da Piedade, Frei Agostinho de Jesus e Domingos Conceição da Silva. Há exemplares desses três artistas em S. Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Olinda.
Esse fazendeiro português que possuía terras em Summampa encomendou em S.Paulo uma imagem de Nossa Senhora , para ser colocada em sua casa. As imagens foram enviadas em carros de boi. Ao cabo de dois dias elas já estavam nas terras do referido senhor, isto é, às margens do rio Lujan. O fato inusitado é que a carroça que transportava as imagens e outros objetos, antes de chegar ao seu destino, não conseguia avançar. Tiraram todas as caixas e as cargas em geral. Logo a carroça se movia, mas quando as cargas eram colocadas, repetia-se o fato. Isso aconteceu várias vezes. Foram retirando os pacotes um a um. Perceberam que quando, precisamente, um deles fora retirado, a carroça se movia, mas se era novamente colocado, ela emperrava. Ao abrirem o pacote, descobriram que era exatamente a imagem de Maria. Logo perceberam que a Mãe queria ficar ali naquele local. O texto no santuário diz que “assim se produziu o milagre de Lujan : Maria havia decidido onde queria permanecer para receber seus filhos e escutar suas súplicas”.
Dessa forma, o santuário oficial da Argentina é muito visitado, é lugar de peregrinação e, sem falsos nacionalismos de nossa parte, mas, talvez, para mostrar que Maria é a Mãe de todos, os nossos vizinhos argentinos têm como Padroeira, uma imagem brasileira que até lembra a nossa de Aparecida, pois é negra, pequena e tem o mesmo manto. Conforme a história lida lá, por trás do manto há um revestimento de prata para melhor preservá-la.
Dessa forma, Maria está presente no coração do povo argentino como aquela que foi dada a João Evangelista como a Mãe de todos :”Filho eis tua Mãe, Mãe eis o teu filho”. Para o evangelista João, Maria é um dom de Deus aos homens e mulheres de todos os tempos e lugares e que personaliza a própria Igreja que deve ser um abrigo de todos, sobretudo dos mais necessitados.
O povo argentino é conhecido pelo quase fanatismo relacionado ao futebol – e daí vêm as nossas controvérsias. A guia disse que não poderia deixar de nos mostrar o estádio do Bocca Junior, que está ao lado do bairro ocupado pelos italianos imigrantes, onde Maradona é rei. Na área chamada “Caminito” há uma concentração das antigas moradias ocupadas por eles e que hoje, todas pintadas e coloridas ( é um pequeno Pelourinho), são apresentadas como um dos “points” turísticos.
De qualquer forma, o argentino – pelo menos o que vi em Buenos Aires – tem um espírito de reivindicação que nos faz inveja. Todos os dias havia alguma manifestação, seja na Casa Rosada como no Congresso, alem de manifestações pelas ruas e avenidas.
Na Praça de Maio ocupa um lugar de destaque a Catedral que tem como Padroeiro a própria Santíssima Trindade. Lá encontra-se o mausoléu de San Martin, o herói libertador da Pátria. Ele, em 25 de maio de 1810, já elaborou os primeiros passos para a independência, pois o povo não aceitava ficar sob o jugo de Napoleão que dominava a Espanha – diziam que já não aceitavam um rei espanhol e muito menos, agora, um francês. As idéias libertárias se consolidaram no dia 9 de julho de 1916 – é um dia de feriado e corresponde ao nosso 7 de Setembro. Mas estranhei por não presenciar desfiles e paradas militares. Mas me responderam que como o povo já está muito desiludido com os políticos, não haveria público para aplaudir essas festas cívicas – por isso, o dia é apenas um feriado nacional.
Perguntando sobre qual o título mariano que prevalece na cidade e no país, fui informado sobre a devoção a Nossa Senhora de Lujan, que fica a uns 70 km fora de Buenos Aires e que é o santuário nacional ( como aqui é Aparecida).
Apesar das inevitáveis divergências no futebol, há algo muito em comum entre esse país e o Brasil,na origem dessa devoção. E fui lá, com minha mãe, para conhecer esse santuário
A história está contada num grande painel localizado ao lado do altar-mor na basílica, que é neo-gótica e que imita, em proporções bem menores, a Notre Dame de Paris- foi construída em 1896.
Tudo começou em 1630, quando um fazendeiro português, que lá morava, quis ter na sua casa de campo uma imagem de Nossa Senhora. Nessa época estava em voga a confecção de imagem em terracota em S. Paulo. Há várias imagens desse material e mais ou menos nesse estilo, nessa época. A maioria veio de Portugal no século XVII. Mas, aos poucos, os artistas surgiram no Brasil Temos os grandes representantes dessa época que são Frei Agostinho da Piedade, Frei Agostinho de Jesus e Domingos Conceição da Silva. Há exemplares desses três artistas em S. Paulo, Rio de Janeiro, Bahia e Olinda.
Esse fazendeiro português que possuía terras em Summampa encomendou em S.Paulo uma imagem de Nossa Senhora , para ser colocada em sua casa. As imagens foram enviadas em carros de boi. Ao cabo de dois dias elas já estavam nas terras do referido senhor, isto é, às margens do rio Lujan. O fato inusitado é que a carroça que transportava as imagens e outros objetos, antes de chegar ao seu destino, não conseguia avançar. Tiraram todas as caixas e as cargas em geral. Logo a carroça se movia, mas quando as cargas eram colocadas, repetia-se o fato. Isso aconteceu várias vezes. Foram retirando os pacotes um a um. Perceberam que quando, precisamente, um deles fora retirado, a carroça se movia, mas se era novamente colocado, ela emperrava. Ao abrirem o pacote, descobriram que era exatamente a imagem de Maria. Logo perceberam que a Mãe queria ficar ali naquele local. O texto no santuário diz que “assim se produziu o milagre de Lujan : Maria havia decidido onde queria permanecer para receber seus filhos e escutar suas súplicas”.
Dessa forma, o santuário oficial da Argentina é muito visitado, é lugar de peregrinação e, sem falsos nacionalismos de nossa parte, mas, talvez, para mostrar que Maria é a Mãe de todos, os nossos vizinhos argentinos têm como Padroeira, uma imagem brasileira que até lembra a nossa de Aparecida, pois é negra, pequena e tem o mesmo manto. Conforme a história lida lá, por trás do manto há um revestimento de prata para melhor preservá-la.
Dessa forma, Maria está presente no coração do povo argentino como aquela que foi dada a João Evangelista como a Mãe de todos :”Filho eis tua Mãe, Mãe eis o teu filho”. Para o evangelista João, Maria é um dom de Deus aos homens e mulheres de todos os tempos e lugares e que personaliza a própria Igreja que deve ser um abrigo de todos, sobretudo dos mais necessitados.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
A INICIAÇÃO E A BUSCA DE NOVOS VALORES
A INICIAÇÃO E A BUSCA DE NOVOS VALORES
A iniciação está presente em todo tipo de sociedade, e abrange vários níveis da vida humana, muitas vezes sendo difícil até distinguir onde termina um elemento e começa outro. Desse modo, o social, o religioso, o econômico e outros aspectos pertinentes se interligam e dependem mutuamente. Nesse sentido, as instituições básicas e clássicas da sociedade, não apenas ocidental, isto é, a família, a religião e a escola (academia), são os canais naturais de transmissão de valores para as novas gerações.
Mas o fato, facilmente constatável da necessidade de iniciação nas diversas sociedades humanas está hoje ameaçado, sofre um processo de crise, de ruptura, e ameaça a transmissão de valores para as gerações mais jovens, que, por isso mesmo, se sentem sem rumo, em busca de novos valores em que se apóiem.
Evidentemente que há várias razões para isso. Em contraste com a sociedade antiga que baseava a transmissão dos seus valores a partir da necessidade de uma iniciação, na sociedade moderna, o que predomina é a auto-iniciação, é o aprendizado imediato das coisas. Aprende-se algo para fazer alguma coisa com aquilo que se aprendeu. É a sociedade pragmática, utilitária, que leva as pessoas a uma mentalidade descartável da vida: tudo é ou não utilizável, até as pessoas. Nas sociedades de pequena escala ainda subsistem as iniciações, apesar da presença do homem branco, nessas sociedades, constituir-se sempre uma ameaça.
O que mais caracteriza a nossa sociedade, no sentido de trazer inquietações, é que ela não vê com clareza o que quer transmitir. Aí está a raiz da crise da iniciação no nosso tempo. Na verdade, a iniciação é portadora de elementos que constituem as diversas sociedades, pois sem transmissão de valores não há continuidade.
O próprio fato da crise de iniciação na nossa sociedade gera, em contrapartida, a necessidade de novas iniciações e de novos ritos de passagem, pois persiste sempre a necessidade de ritos iniciáticos, que subsistem sob formas não institucionalizadas, informais.
As sociedades humanas são marcadas pela institucionalização da cultura. Isso porque ela é o instrumento de transmissão dos meios de sobrevivência, seja dos indivíduos, seja da sociedade. Como o homem, ao nascer, é dependente de tudo, tem necessidade de ser educado, de receber um patrimônio construído pelos outros, para que possa se inserir no seu contexto. Como hoje há um certo deslocamento de tarefas, com relação à missão dos tradicionais agentes formadores, a formação tem passado para outras instâncias que escapam ao controle das camadas dominantes. Isso gera, naturalmente, uma tensão entre a educação formal e a informal. Nem sempre os estudiosos do assunto vêem essa tensão como algo negativo, mas consideram que ela pode ser sinal de uma busca e, sobretudo, de recomposição de novos valores.
A própria crise da iniciação leva a pessoa e a sociedade quase a “fabricarem” novos ritos de iniciação. É como se o grupo quisesse reforçar a coesão, as normas, interiorizar suas regras pelos novos que vão chegando e permitir, de alguma forma, que aquele que aceita a regra do jogo (daquele grupo ou sociedade) aceite se religar a uma história contínua e ser depositário de uma memória da qual será transmissor.
Essas dificuldades atingem as pessoas individualmente e como grupo social; atingem a religião como um todo, o cristianismo, o catolicismo e outras expressões religiosas; as famílias religiosas não sabem como iniciar as novas gerações nos seus valores básicos, nos valores recebidos e vividos numa sociedade em mutação.
Persiste uma rejeição quase instintiva de tudo que é religioso ou que fale de Deus, sobretudo nas relações dos jovens com a fé cristã. É inegável o esforço de muitos líderes religiosos, através de manifestações oficiais e de documentos emitidos para um diálogo mais próximo.
Nesse contexto, é apresentado o problema da ruptura com as tradições que traz como conseqüência uma perda de valores da memória coletiva. Nesse sentido, o trabalho é um interrogar aos cristãos, às pessoas de fé, sobre a sua missão: que tarefas têm os que crêem, quando eles próprios são confrontados com uma interrupção do fio da tradição cristã?
A iniciação está presente em todo tipo de sociedade, e abrange vários níveis da vida humana, muitas vezes sendo difícil até distinguir onde termina um elemento e começa outro. Desse modo, o social, o religioso, o econômico e outros aspectos pertinentes se interligam e dependem mutuamente. Nesse sentido, as instituições básicas e clássicas da sociedade, não apenas ocidental, isto é, a família, a religião e a escola (academia), são os canais naturais de transmissão de valores para as novas gerações.
Mas o fato, facilmente constatável da necessidade de iniciação nas diversas sociedades humanas está hoje ameaçado, sofre um processo de crise, de ruptura, e ameaça a transmissão de valores para as gerações mais jovens, que, por isso mesmo, se sentem sem rumo, em busca de novos valores em que se apóiem.
Evidentemente que há várias razões para isso. Em contraste com a sociedade antiga que baseava a transmissão dos seus valores a partir da necessidade de uma iniciação, na sociedade moderna, o que predomina é a auto-iniciação, é o aprendizado imediato das coisas. Aprende-se algo para fazer alguma coisa com aquilo que se aprendeu. É a sociedade pragmática, utilitária, que leva as pessoas a uma mentalidade descartável da vida: tudo é ou não utilizável, até as pessoas. Nas sociedades de pequena escala ainda subsistem as iniciações, apesar da presença do homem branco, nessas sociedades, constituir-se sempre uma ameaça.
O que mais caracteriza a nossa sociedade, no sentido de trazer inquietações, é que ela não vê com clareza o que quer transmitir. Aí está a raiz da crise da iniciação no nosso tempo. Na verdade, a iniciação é portadora de elementos que constituem as diversas sociedades, pois sem transmissão de valores não há continuidade.
O próprio fato da crise de iniciação na nossa sociedade gera, em contrapartida, a necessidade de novas iniciações e de novos ritos de passagem, pois persiste sempre a necessidade de ritos iniciáticos, que subsistem sob formas não institucionalizadas, informais.
As sociedades humanas são marcadas pela institucionalização da cultura. Isso porque ela é o instrumento de transmissão dos meios de sobrevivência, seja dos indivíduos, seja da sociedade. Como o homem, ao nascer, é dependente de tudo, tem necessidade de ser educado, de receber um patrimônio construído pelos outros, para que possa se inserir no seu contexto. Como hoje há um certo deslocamento de tarefas, com relação à missão dos tradicionais agentes formadores, a formação tem passado para outras instâncias que escapam ao controle das camadas dominantes. Isso gera, naturalmente, uma tensão entre a educação formal e a informal. Nem sempre os estudiosos do assunto vêem essa tensão como algo negativo, mas consideram que ela pode ser sinal de uma busca e, sobretudo, de recomposição de novos valores.
A própria crise da iniciação leva a pessoa e a sociedade quase a “fabricarem” novos ritos de iniciação. É como se o grupo quisesse reforçar a coesão, as normas, interiorizar suas regras pelos novos que vão chegando e permitir, de alguma forma, que aquele que aceita a regra do jogo (daquele grupo ou sociedade) aceite se religar a uma história contínua e ser depositário de uma memória da qual será transmissor.
Essas dificuldades atingem as pessoas individualmente e como grupo social; atingem a religião como um todo, o cristianismo, o catolicismo e outras expressões religiosas; as famílias religiosas não sabem como iniciar as novas gerações nos seus valores básicos, nos valores recebidos e vividos numa sociedade em mutação.
Persiste uma rejeição quase instintiva de tudo que é religioso ou que fale de Deus, sobretudo nas relações dos jovens com a fé cristã. É inegável o esforço de muitos líderes religiosos, através de manifestações oficiais e de documentos emitidos para um diálogo mais próximo.
Nesse contexto, é apresentado o problema da ruptura com as tradições que traz como conseqüência uma perda de valores da memória coletiva. Nesse sentido, o trabalho é um interrogar aos cristãos, às pessoas de fé, sobre a sua missão: que tarefas têm os que crêem, quando eles próprios são confrontados com uma interrupção do fio da tradição cristã?
NOVOS RITOS DE PASSAGEM
Há certos gestos e objetos que são marcados pelo fenômeno da passagem: o primeiro talão de cheque, o primeiro carro, o computador, a abertura de uma conta bancária, etc. Mas eles não têm jamais função puramente simbólica. Têm também uma utilidade real.
O rito dos calouros pode ser considerado como uma autocelebração do grupo constituído. Nesse sentido, ele é um espelho em que se desvela o imaginário do grupo, através de funções instituídas, de comportamentos adotados e valores que contam “vantagem”.
O recurso à tradição, sobretudo nos períodos de tensão, torna-se um meio de reforçar as distâncias e as barreiras sociais. O recurso ao ritual tem também uma função de estabilização e de confirmação. Sob uma aparência momentaneamente descoordenada, ele permite uma mais rápida e melhor interiorização das normas do grupo pelos novos, reforça a coesão do grupo dos antigos, acelera o interconhecimento dos indivíduos e reitera a adesão (mesmo se ela se exprimir sob uma forma inversa) à ordem pedagógica e aos valores da instituição escolar. Ele permite àquele que aceita a regra do jogo religar-se a uma história contínua e tornar-se depositário de uma memória que será incumbido de transmitir. À cultura técnica, ao savoir-faire ensinado pela instituição, se sobrepõe um savoir-être, que é um comportamento emocional e afetivo produzido e controlado pelo grupo.
É revelador que essa iniciação (a do calouro) seja chamada de “batismo”. Ela é muitas vezes solene ou menos séria e comporta uma forte carga emotiva.
Nem a presença dos elementos religiosos num ritual com acentos tão profanos pode parecer uma contradição. Mas eles são característicos dessa “inculturação religiosa” que ainda impregna a nossa sociedade modelada pelo cristianismo. E, acima de tudo, eles introduzem a noção da consagração e de pertença a um grupo em formação.
O mundo religioso parece ter sido uma constante nesses rituais de calouros. Denise Berger, apoiando-se num conjunto de textos e estampas dos séculos XV ao XVIII, descreve vários itens de entronização de estudantes nas universidades européias, que se assemelham aos nossos ritos de calouros (Depositio). Ela estabelece claramente o simbolismo cristão do rito, que, sob a forma inversa da caricatura, apela a modelos religiosos. Há uma ressurreição celebrada pelo Batismo.
A relação estabelecida entre a mácula anterior e o renascimento ligado ao sacramento, a dimensão simbólica, assim como a terminologia empregada, reenviam claramente ao batismo religioso. Ele, o batismo, é um nascimento espiritual que apaga o pecado, confere a graça e abre a vida eterna ao cristão. Desse novo nascimento decorre, naturalmente, a ligação espiritual, que é diferente da relação de família, apesar de ela ser o modelo usado aqui; na verdade, a instituição do padrinho-madrinha foi sempre algo a mais que uma relação de família.
Através de uma violência teatralizada e representada como tal, a “calourada” marca uma passagem e esboça uma fronteira. Ela opera uma mudança de estado instrumentalizado por uma série de operações, um conjunto construído de atos sucessivos, que, primeiramente, separa o “noviço” do seu meio de origem, depois o remodela segundo outros critérios culturais, para, em seguida, agregar esse ser transformado a um novo grupo de afiliação, incluindo-o num parentesco escolar.
Hoje, aponta-se como um dos ritos de passagem do mundo contemporâneo, o chamado inserimento, isto é, a entrada de uma criança na escola maternal, na creche, ainda muito cedo, sofrendo todas as conseqüências de um mundo novo que ela enfrenta, participando, desse modo, de um tipo de iniciação.
Quando se olha a situação de transição em que a criança passa do universo maternal ao mundo novo da creche, desde o primeiro dia em que ela se sente mergulhada, percebe-se que a prática do inserimento comporta verdadeiros ritos de passagem que estruturam o que foi definido como uma “iniciação”. Essa iniciação é constituída de duas experiências complementares e opostas: ela ajuda a criança a se desligar de um meio e a se adaptar a um novo meio, a se separar de um e a se ligar a outro.
O rito dos calouros pode ser considerado como uma autocelebração do grupo constituído. Nesse sentido, ele é um espelho em que se desvela o imaginário do grupo, através de funções instituídas, de comportamentos adotados e valores que contam “vantagem”.
O recurso à tradição, sobretudo nos períodos de tensão, torna-se um meio de reforçar as distâncias e as barreiras sociais. O recurso ao ritual tem também uma função de estabilização e de confirmação. Sob uma aparência momentaneamente descoordenada, ele permite uma mais rápida e melhor interiorização das normas do grupo pelos novos, reforça a coesão do grupo dos antigos, acelera o interconhecimento dos indivíduos e reitera a adesão (mesmo se ela se exprimir sob uma forma inversa) à ordem pedagógica e aos valores da instituição escolar. Ele permite àquele que aceita a regra do jogo religar-se a uma história contínua e tornar-se depositário de uma memória que será incumbido de transmitir. À cultura técnica, ao savoir-faire ensinado pela instituição, se sobrepõe um savoir-être, que é um comportamento emocional e afetivo produzido e controlado pelo grupo.
É revelador que essa iniciação (a do calouro) seja chamada de “batismo”. Ela é muitas vezes solene ou menos séria e comporta uma forte carga emotiva.
Nem a presença dos elementos religiosos num ritual com acentos tão profanos pode parecer uma contradição. Mas eles são característicos dessa “inculturação religiosa” que ainda impregna a nossa sociedade modelada pelo cristianismo. E, acima de tudo, eles introduzem a noção da consagração e de pertença a um grupo em formação.
O mundo religioso parece ter sido uma constante nesses rituais de calouros. Denise Berger, apoiando-se num conjunto de textos e estampas dos séculos XV ao XVIII, descreve vários itens de entronização de estudantes nas universidades européias, que se assemelham aos nossos ritos de calouros (Depositio). Ela estabelece claramente o simbolismo cristão do rito, que, sob a forma inversa da caricatura, apela a modelos religiosos. Há uma ressurreição celebrada pelo Batismo.
A relação estabelecida entre a mácula anterior e o renascimento ligado ao sacramento, a dimensão simbólica, assim como a terminologia empregada, reenviam claramente ao batismo religioso. Ele, o batismo, é um nascimento espiritual que apaga o pecado, confere a graça e abre a vida eterna ao cristão. Desse novo nascimento decorre, naturalmente, a ligação espiritual, que é diferente da relação de família, apesar de ela ser o modelo usado aqui; na verdade, a instituição do padrinho-madrinha foi sempre algo a mais que uma relação de família.
Através de uma violência teatralizada e representada como tal, a “calourada” marca uma passagem e esboça uma fronteira. Ela opera uma mudança de estado instrumentalizado por uma série de operações, um conjunto construído de atos sucessivos, que, primeiramente, separa o “noviço” do seu meio de origem, depois o remodela segundo outros critérios culturais, para, em seguida, agregar esse ser transformado a um novo grupo de afiliação, incluindo-o num parentesco escolar.
Hoje, aponta-se como um dos ritos de passagem do mundo contemporâneo, o chamado inserimento, isto é, a entrada de uma criança na escola maternal, na creche, ainda muito cedo, sofrendo todas as conseqüências de um mundo novo que ela enfrenta, participando, desse modo, de um tipo de iniciação.
Quando se olha a situação de transição em que a criança passa do universo maternal ao mundo novo da creche, desde o primeiro dia em que ela se sente mergulhada, percebe-se que a prática do inserimento comporta verdadeiros ritos de passagem que estruturam o que foi definido como uma “iniciação”. Essa iniciação é constituída de duas experiências complementares e opostas: ela ajuda a criança a se desligar de um meio e a se adaptar a um novo meio, a se separar de um e a se ligar a outro.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
USOS DO TERMO INICIAÇÃO
O termo iniciação tem diferentes aspectos e também vários campos de aplicação. Descobrimos que o processo de iniciação permanece uma realidade presente na sociedade contemporânea, mesmo se isso não é nela plenamente visível, à primeira vista. Ela corresponde a novas buscas, a novas expectativas que estão presentes nessa sociedade. O que entendemos por iniciação?
Podemos citar três usos do termo iniciação:
1º - Na sua origem, o termo diz respeito aos “mistérios” gregos e romanos. A pessoa passa por uma experiência religiosa que transforma seu ser e que lhe dá acesso à salvação. Os iniciados têm acesso aos “mistérios secretos” através de ritos. Entrar nesses “mistérios” é renovar a existência. Também existe o aspecto de integração ao grupo dos iniciados.
2º - Há também um outro aspecto que é o da cultura e religião. Nas sociedades e religiões primitivas, tradicionais, as crianças, chegando à puberdade, são introduzidas no mundo dos adultos através de provas, ritos e ensinamentos orais. Essa iniciação tem como fim modificar radicalmente a condição social e religiosa da pessoa iniciada.
3º - Enfim, num sentido mais atual, independentemente de todo contexto religioso, fala-se de iniciação para designar o processo de aprendizagem e de socialização. Nesse caso, iniciação significa uma introdução progressiva, seja ao conhecimento de uma teoria, de uma doutrina, seja à prática de uma técnica, de uma disciplina, de um ofício. Nesse sentido, a iniciação tem um âmbito restrito: pode-se ser iniciado em pintura, em informática, em matemática. Num sentido mais largo, fala-se igualmente de iniciação para significar o processo pelo qual uma pessoa aprende a se apropriar existencialmente das normas, dos valores, dos comportamentos, das atitudes e dos hábitos de um grupo social. Ela não se limita àquilo que se entende por educação ou formação. Ela toca na pessoa, no seu ser, na sua maneira de ser. Por isso ela é mais que a simples aprendizagem de uma técnica ou de um saber.
A iniciação é expressão privilegiada do drama da existência. Ela é o protótipo mesmo do percurso da morte à vida. Ela é inerente à condição humana. Habita todo o homem e estrutura sua personalidade profunda. Ela se encontra ancorada solidamente no mais profundo do imaginário humano, do indivíduo e dos grupos. Não nos espantamos ao encontrá-la em múltiplos domínios, sobretudo na nossa época em que o corpo social, no seu conjunto, está em mutação permanente.
Através da passagem ritual de iniciação, está em jogo uma busca de identidade. Não se trata somente de adquirir conhecimentos intelectuais e de técnicas de aprendizagem para viver. Mais profundamente, o ser humano tem necessidade de um saber-ser. Deseja se conhecer e se situar na sociedade. Para ser reconhecido, ele deve aceder a um certo status social, que implica em instâncias, isto é, numa identidade existencial, numa identidade familiar e numa identidade social (como me integrar no grupo?).
Cada iniciado é conduzido a tomar posição e a trabalhar o campo de suas relações. Podem-se distinguir as relações primárias fundadas sobre as diferenças biológicas de sexo: homem/mulher; de idade: velho/novo; de pertença étnica: estrangeiro/autóctone; e também dominante/dominado (relações construídas a partir da repartição das riquezas, do poder, do saber).
A escola e a família que são objetos da mais forte institucionalização social, são cada vez mais concorridas por instâncias de socialização, deixando grande espaço para aquilo que se poderia chamar de iniciação informal.
Será que os ritos de passagem hoje desapareceram ou se transformaram? Numa sociedade que evolui rapidamente, como a nossa, os ritos organizados num período anterior, tornam-se logo velhos, ultrapassados.
Mas, apesar de uma crise de iniciação que marca nossa sociedade, pode-se dizer que há uma persistência do processo iniciático sob formas não institucionalizadas: a primeira comunhão, a comunhão solene (presente em muitos países da Europa), os retiros, o escotismo, os 15 anos, o vestibular, etc. O etnólogo Pasquier diz que o processo iniciático de nossa sociedade continua a desafiar o nosso imaginário coletivo. Na verdade, ele não é mais institucionalizado. Todavia, muitas vezes faz nascer uma procura espiritual determinada, desligada das formas iniciáticas estabelecidas e conhecidas.
Podemos citar três usos do termo iniciação:
1º - Na sua origem, o termo diz respeito aos “mistérios” gregos e romanos. A pessoa passa por uma experiência religiosa que transforma seu ser e que lhe dá acesso à salvação. Os iniciados têm acesso aos “mistérios secretos” através de ritos. Entrar nesses “mistérios” é renovar a existência. Também existe o aspecto de integração ao grupo dos iniciados.
2º - Há também um outro aspecto que é o da cultura e religião. Nas sociedades e religiões primitivas, tradicionais, as crianças, chegando à puberdade, são introduzidas no mundo dos adultos através de provas, ritos e ensinamentos orais. Essa iniciação tem como fim modificar radicalmente a condição social e religiosa da pessoa iniciada.
3º - Enfim, num sentido mais atual, independentemente de todo contexto religioso, fala-se de iniciação para designar o processo de aprendizagem e de socialização. Nesse caso, iniciação significa uma introdução progressiva, seja ao conhecimento de uma teoria, de uma doutrina, seja à prática de uma técnica, de uma disciplina, de um ofício. Nesse sentido, a iniciação tem um âmbito restrito: pode-se ser iniciado em pintura, em informática, em matemática. Num sentido mais largo, fala-se igualmente de iniciação para significar o processo pelo qual uma pessoa aprende a se apropriar existencialmente das normas, dos valores, dos comportamentos, das atitudes e dos hábitos de um grupo social. Ela não se limita àquilo que se entende por educação ou formação. Ela toca na pessoa, no seu ser, na sua maneira de ser. Por isso ela é mais que a simples aprendizagem de uma técnica ou de um saber.
A iniciação é expressão privilegiada do drama da existência. Ela é o protótipo mesmo do percurso da morte à vida. Ela é inerente à condição humana. Habita todo o homem e estrutura sua personalidade profunda. Ela se encontra ancorada solidamente no mais profundo do imaginário humano, do indivíduo e dos grupos. Não nos espantamos ao encontrá-la em múltiplos domínios, sobretudo na nossa época em que o corpo social, no seu conjunto, está em mutação permanente.
Através da passagem ritual de iniciação, está em jogo uma busca de identidade. Não se trata somente de adquirir conhecimentos intelectuais e de técnicas de aprendizagem para viver. Mais profundamente, o ser humano tem necessidade de um saber-ser. Deseja se conhecer e se situar na sociedade. Para ser reconhecido, ele deve aceder a um certo status social, que implica em instâncias, isto é, numa identidade existencial, numa identidade familiar e numa identidade social (como me integrar no grupo?).
Cada iniciado é conduzido a tomar posição e a trabalhar o campo de suas relações. Podem-se distinguir as relações primárias fundadas sobre as diferenças biológicas de sexo: homem/mulher; de idade: velho/novo; de pertença étnica: estrangeiro/autóctone; e também dominante/dominado (relações construídas a partir da repartição das riquezas, do poder, do saber).
A escola e a família que são objetos da mais forte institucionalização social, são cada vez mais concorridas por instâncias de socialização, deixando grande espaço para aquilo que se poderia chamar de iniciação informal.
Será que os ritos de passagem hoje desapareceram ou se transformaram? Numa sociedade que evolui rapidamente, como a nossa, os ritos organizados num período anterior, tornam-se logo velhos, ultrapassados.
Mas, apesar de uma crise de iniciação que marca nossa sociedade, pode-se dizer que há uma persistência do processo iniciático sob formas não institucionalizadas: a primeira comunhão, a comunhão solene (presente em muitos países da Europa), os retiros, o escotismo, os 15 anos, o vestibular, etc. O etnólogo Pasquier diz que o processo iniciático de nossa sociedade continua a desafiar o nosso imaginário coletivo. Na verdade, ele não é mais institucionalizado. Todavia, muitas vezes faz nascer uma procura espiritual determinada, desligada das formas iniciáticas estabelecidas e conhecidas.
São Paulo e São Pedro - colunas do cristianismo
No rico ciclo junino, que termina com a festa de S. Pedro, figura central na expansão do cristianismo nascente, a pessoa de S. Paulo, que na Liturgia é celebrado juntamente com o Chaveiro dos Céus, no dia 29 de junho, não entrou no ciclo das devoções populares de junho.
Pedro é o discípulo-apóstolo tão ardoroso quanto fraco. Todos nos lembramos do que Cristo lhe disse :”Pedro, antes que o galo cante, tu me negarás”. E de fato, isso aconteceu. Mas nem por isso ele deixou de ser o depositário da confiança do Senhor para ser o Pedro-pedra, sobre a qual ( pedra) Ele edificou a sua Igreja. Por sua fé e humildade será chamado a confirmar a fé dos seus irmãos.
S. Pedro, que conforme a tradição dos Evangelhos, foi o apóstolo escolhido para ser o irmão-pastor da comunidade, e numa linguagem posterior, é chamado de o 1º Papa, é festejado com outro apóstolo que tem importância capital para a expansão do cristianismo. Os dois são considerados como as colunas mestras nessa nova arquitetura de Deus que é a Igreja/Templo vivo que Cristo quis edificar.
De acordo com a história da Liturgia, essa festa dos dois apóstolos, foi incluída no Santoral Romano já antes da festa do Natal. No século IV já eram celebradas três missas em homenagem a esses santos: uma em S. Pedro no Vaticano, outra em S.Paulo Fora dos Muros (onde estão as relíquias desse santo) e outra na Catacumba de S. Sebastião. Diz a tradição que na época das perseguições aos cristãos prolongadas até o início do IV século,as relíquias desses dois apóstolos ficaram escondidas naquela catacumba, até que viesse a era constantiniana.
Mas Paulo tem o destaque de ser o cabeça-pensante, aquele que elaborou, por primeiro, o corpo doutrinal do pensamento do cristianismo. Ele é, por excelência, o missionário impetuoso, que rompe as fronteiras do judaísmo e proclama a Boa Nova a todos os povos. Ele é o apóstolo que melhor aprofunda aquilo que a teologia chama de o “mistério “ de Cristo.
O pensamento de Paulo está conservado nas suas epístolas, que constituem aquilo que se chama de “o corpo Paulino”. Suas treze epístolas, designadas pelos destinatários ou comunidades a que ele se dirigia, são classificadas não pela ordem cronológica, mas pelo comprimento decrescente. Entre as epístolas, há aquelas ditas do cativeiro (Filipenses,Colossenses e Filemon), sem precisar qual foi o cativeiro, pois ele esteve preso por diversas vezes. Há também as epístolas pastorais – de Timóteo e Tito – que são assim chamadas por serem instruções aos pastores das jovens igrejas.
É conhecido o lugar do pensamento de Paulo na elaboração do pensamento cristão. E sua pessoa se encontra simbolizando o encontro de três culturas – a judaica, a romana e a cristã – que marcarão a difusão do cristianismo.
Ele nasceu na Ásia Menor, entre 5 e 15 da era cristã de uma família zelosa, e ele próprio, como fariseu, recebeu uma sólida formação em Jerusalém, falava grego, e através de sua família, beneficiou-se do título de Cidadão Romano. Convencionou-se celebrar o bimilenário de nascimento de Paulo de 2008 a 2009. Ele não conheceu Cristo pessoalmente. Em Jerusalém fez parte do grupo dos judeus dos mais hostis aos cristãos e os perseguiu sem descanso, com convicção de estar prestando um grande bem à Lei antiga – ele assistiu e aprovou o martírio de Estevão, considerado o primeiro mártir da era cristã. Mas é exatamente em Damasco, onde estava à cata de cristãos para prendê-los, que ele, pelo ano 38, é jogado por terra por uma força invencível que lhe diz :”Saulo, Saulo, por que me persegues ?”. Dessa forma, ele recebeu uma revelação que o tornou um dos mais ardentes discípulos de Cristo .
Toda a teologia de Paulo decorre do caminho percorrido em Damasco. “Quem és tu Senhor?”. E Cristo lhe responde :”Eu sou Jesus a quem tu persegues”. Sobre esse caminho ele identifica Jesus como o Filho de Deus, como o Messias prometido. Ele compreende que a Lei o havia tornado cego para entender a verdadeira vontade de Deus. E essa visão vai ser transportada para a sua teologia : identificar os cristãos, os irmãos, com Cristo.
Hostilizado de um lado pelos judeus e do outro lado pelos cristãos de origem judaica, ele foi conduzido àqueles que estavam mais longe do cristianismo, aos pagãos que os judeus chamavam de os gentios – por isso, ele é chamado de “O Apóstolo dos Gentios”.
Independente de sua obra teológica, o balanço da sua ação missionária é considerável. Ele multiplicou e consolidou as Igrejas da Ásia Menor (Galácia, Éfeso) e contribuiu fazendo com que o cristianismo penetrasse no Ocidente, alem de evangelizar as grandes cidades da Grécia, como Filipos, Tessalônica, Colossos. Mas sofreu hostilidade em Atenas e também em Roma. Ele morreu em Roma entre 67 e 68, provavelmente, pouco após Pedro. Eles são venerados em conjunto e foram considerados como “as colunas centrais da Igreja” já pelo Papa S. Clemente, em 95.
O cristianismo, sob as suas diversas formas históricas , necessita sempre retomar a mensagem e atuação desses dois Apóstolos, voltar à primeira pregação, pois ela é modelar para renovar a visão e a busca do sagrado nos nossos dias.
Pedro é o discípulo-apóstolo tão ardoroso quanto fraco. Todos nos lembramos do que Cristo lhe disse :”Pedro, antes que o galo cante, tu me negarás”. E de fato, isso aconteceu. Mas nem por isso ele deixou de ser o depositário da confiança do Senhor para ser o Pedro-pedra, sobre a qual ( pedra) Ele edificou a sua Igreja. Por sua fé e humildade será chamado a confirmar a fé dos seus irmãos.
S. Pedro, que conforme a tradição dos Evangelhos, foi o apóstolo escolhido para ser o irmão-pastor da comunidade, e numa linguagem posterior, é chamado de o 1º Papa, é festejado com outro apóstolo que tem importância capital para a expansão do cristianismo. Os dois são considerados como as colunas mestras nessa nova arquitetura de Deus que é a Igreja/Templo vivo que Cristo quis edificar.
De acordo com a história da Liturgia, essa festa dos dois apóstolos, foi incluída no Santoral Romano já antes da festa do Natal. No século IV já eram celebradas três missas em homenagem a esses santos: uma em S. Pedro no Vaticano, outra em S.Paulo Fora dos Muros (onde estão as relíquias desse santo) e outra na Catacumba de S. Sebastião. Diz a tradição que na época das perseguições aos cristãos prolongadas até o início do IV século,as relíquias desses dois apóstolos ficaram escondidas naquela catacumba, até que viesse a era constantiniana.
Mas Paulo tem o destaque de ser o cabeça-pensante, aquele que elaborou, por primeiro, o corpo doutrinal do pensamento do cristianismo. Ele é, por excelência, o missionário impetuoso, que rompe as fronteiras do judaísmo e proclama a Boa Nova a todos os povos. Ele é o apóstolo que melhor aprofunda aquilo que a teologia chama de o “mistério “ de Cristo.
O pensamento de Paulo está conservado nas suas epístolas, que constituem aquilo que se chama de “o corpo Paulino”. Suas treze epístolas, designadas pelos destinatários ou comunidades a que ele se dirigia, são classificadas não pela ordem cronológica, mas pelo comprimento decrescente. Entre as epístolas, há aquelas ditas do cativeiro (Filipenses,Colossenses e Filemon), sem precisar qual foi o cativeiro, pois ele esteve preso por diversas vezes. Há também as epístolas pastorais – de Timóteo e Tito – que são assim chamadas por serem instruções aos pastores das jovens igrejas.
É conhecido o lugar do pensamento de Paulo na elaboração do pensamento cristão. E sua pessoa se encontra simbolizando o encontro de três culturas – a judaica, a romana e a cristã – que marcarão a difusão do cristianismo.
Ele nasceu na Ásia Menor, entre 5 e 15 da era cristã de uma família zelosa, e ele próprio, como fariseu, recebeu uma sólida formação em Jerusalém, falava grego, e através de sua família, beneficiou-se do título de Cidadão Romano. Convencionou-se celebrar o bimilenário de nascimento de Paulo de 2008 a 2009. Ele não conheceu Cristo pessoalmente. Em Jerusalém fez parte do grupo dos judeus dos mais hostis aos cristãos e os perseguiu sem descanso, com convicção de estar prestando um grande bem à Lei antiga – ele assistiu e aprovou o martírio de Estevão, considerado o primeiro mártir da era cristã. Mas é exatamente em Damasco, onde estava à cata de cristãos para prendê-los, que ele, pelo ano 38, é jogado por terra por uma força invencível que lhe diz :”Saulo, Saulo, por que me persegues ?”. Dessa forma, ele recebeu uma revelação que o tornou um dos mais ardentes discípulos de Cristo .
Toda a teologia de Paulo decorre do caminho percorrido em Damasco. “Quem és tu Senhor?”. E Cristo lhe responde :”Eu sou Jesus a quem tu persegues”. Sobre esse caminho ele identifica Jesus como o Filho de Deus, como o Messias prometido. Ele compreende que a Lei o havia tornado cego para entender a verdadeira vontade de Deus. E essa visão vai ser transportada para a sua teologia : identificar os cristãos, os irmãos, com Cristo.
Hostilizado de um lado pelos judeus e do outro lado pelos cristãos de origem judaica, ele foi conduzido àqueles que estavam mais longe do cristianismo, aos pagãos que os judeus chamavam de os gentios – por isso, ele é chamado de “O Apóstolo dos Gentios”.
Independente de sua obra teológica, o balanço da sua ação missionária é considerável. Ele multiplicou e consolidou as Igrejas da Ásia Menor (Galácia, Éfeso) e contribuiu fazendo com que o cristianismo penetrasse no Ocidente, alem de evangelizar as grandes cidades da Grécia, como Filipos, Tessalônica, Colossos. Mas sofreu hostilidade em Atenas e também em Roma. Ele morreu em Roma entre 67 e 68, provavelmente, pouco após Pedro. Eles são venerados em conjunto e foram considerados como “as colunas centrais da Igreja” já pelo Papa S. Clemente, em 95.
O cristianismo, sob as suas diversas formas históricas , necessita sempre retomar a mensagem e atuação desses dois Apóstolos, voltar à primeira pregação, pois ela é modelar para renovar a visão e a busca do sagrado nos nossos dias.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
O SÃO JOÃO EM CACHOEIRA
Sebastião Heber
Sabemos como as festas juninas invadem o Nordeste nesses dias de tradição folclórica..As cidades, sobretudo do Recôncavo, explodem de alegria. O perigo é que as genuínas tradições podem ir se perdendo em função de um S. João mais comercial. Lembro-me , quando logo aqui cheguei, que na primeira festa junina em que passei na Heróica Cidade,em 2001, vi em muitas casas, nas janelas, bandejas com laranjas, amendoim e licor, tudo aberto ao público que passasse, podendo se servir à vontade.
De qualquer forma, essa festa está no coração dos brasileiros. A história registra que no Rio de Janeiro, havia lugares em que se festejava o Batista de modo estrondoso e fidalgo. Em Paquetá, em Inhaúma, na Ilha do Governador, e em outros recantos, havia um mastro plantado com uma boneca, enfeitada com espiga de milho, laranjas e mais frutas, tudo indicando que ia haver festejos naquele sítio e anunciando a proximidade do dia.Nos arrabaldes, as chácaras e palacetes, usando o mesmo sinal, chamavam a atenção dos vizinhos que propalavam os nomes dos donos dos promotores e comentando os nomes dos convidados.
Tudo isso veio das tradições portuguesas. Por isso mesmo, até hoje é famoso o S. João do Porto. Santo Antônio é em Lisboa, cidade do seu nascimento – lá são famosas as marchas que marcam essa festa. Mas a Câmara de Coimbra já registra em 1464, a “cavalhada na véspera de S. João com sina e bestas muares”. No período da Colônia, os cronistas Frei Vicente do Salvador e Padre Fernão Cardim, registram a alegria dos silvícolas na época de S. João, por causa das fogueiras e das palmeiras que ornamentavam o ambiente.
No interior do Nordeste, muitos ainda se lembram das muitas superstições que eram iluminadas pelo clarão das fogueiras. Seja debaixo dos tetos de estuque como nas casas dos mais pobres, essas crenças abrigavam-se sem constrangimento. Havia muitas crenças que permeavam esse imaginário. Por exemplo, em louvor do Santo, plantava-se um dente de alho e se ele amanhecia grelado, obtinha-se o que se desejava. Outra crença consistia em colocar-se uma bacia d’água ao sereno : antes do nascer do sol se o indivíduo, mirando o rosto, não visse a sua sombra, era sinal de que não chegaria ao outro S. João. Uma outra superstição mais arraigada no meio do povo, era que as brasas da fogueira ficavam bentas; muitas pessoas as guardavam ou enviavam aos parentes ausentes , acreditando que quem as possuísse viveria mais um ano.
Cachoeira é a cidade das grandes tradições da Bahia. Lá não se sente limite entre as festas cívicas e as religiosas. Tudo tem o mesmo ponto de partida e semelhante ponto de chegada. Por isso mesmo, ela tem condições de, ao lado dos festejos cercados com as bandas que preenchem o roteiro junino,não deixar que se perca o fio da tradição que está lá tão presente, mesmo que em alguns aspectos, em estado de hibernação.
Por ser esse centro de cultura no Recôncavo Baiano, é que foi aprovado , por iniciativa da Deputada Lídice da Mata, um Projeto que torna essa cidade a capital da Bahia, em cada 25 de Junho, que corresponde ao 2 de Julho cachoeirano . Nesse dia o Governador do Estado despacha lá, participa de eventos culturais, de sessão na Câmara, e haverá até um Te Deum, na igreja Matriz, em ação de graças pela vocação libertária dessa Cidade Heróica.
Pessoalmente, estou engajado na criação da Casa do Samba-de-Roda de Cachoeira. Dentre os mais famosos da cidade, está o chamado “Suerdick”, que foi organizado pela matriarca Dona Dalva há quase 50 anos. O Prefeito ficou sensível a esse Projeto e doou a casa que está ao lado do Arquivo Público para aí se realizar esse Projeto e os sambas-de-roda da cidade poderem ser abrigados. Essa casa é histórica pois foi lá que nasceu Teixeira de Freitas, o jurista cachoeirano, que dá nome ao Foro da cidade.
Todos esperamos o apoio do Governador, através dos setores correspondentes de incentivo à cultura. Certamente a 1ª Dama ( que não gosta de ser assim chamada), visitará esse sobrado, e se engajará na obtenção dos recursos para tal Projeto chegar a um final feliz.
O IPAC já colheu os dados necessários para elaborar um Projeto de Restauração dessa casa, através dos seus arquitetos e técnicos. Isso tudo enche de expectativas as pessoas interessadas, nesse caso particular, as sambadoras e sambadores ligadas ao Projeto de D. Dalva, que vem mantendo acesa essa bandeira de uma tradição que tão bem representa os valores dessa terra.
Todos contamos com a intercessão de S. João por Cachoeira, nesse dia em que o governo está tão próximo dessa cidade. Ele é Profeta, isto é, aquele que fala mais alto, e mostra os caminhos. Foi ele que, apontando para Cristo , disse:”Eis o Cordeiro de Deus, o que tira o pecado mundo”. Mas esse filho de Isabel e Zacarias era muito humilde, por isso disse :”Eu sou apenas a voz, ele é que é a palavra”. E ainda completa :”Eu não sou digno de desatar suas sandálias”.
De qualquer forma, essa festa está no coração dos brasileiros. A história registra que no Rio de Janeiro, havia lugares em que se festejava o Batista de modo estrondoso e fidalgo. Em Paquetá, em Inhaúma, na Ilha do Governador, e em outros recantos, havia um mastro plantado com uma boneca, enfeitada com espiga de milho, laranjas e mais frutas, tudo indicando que ia haver festejos naquele sítio e anunciando a proximidade do dia.Nos arrabaldes, as chácaras e palacetes, usando o mesmo sinal, chamavam a atenção dos vizinhos que propalavam os nomes dos donos dos promotores e comentando os nomes dos convidados.
Tudo isso veio das tradições portuguesas. Por isso mesmo, até hoje é famoso o S. João do Porto. Santo Antônio é em Lisboa, cidade do seu nascimento – lá são famosas as marchas que marcam essa festa. Mas a Câmara de Coimbra já registra em 1464, a “cavalhada na véspera de S. João com sina e bestas muares”. No período da Colônia, os cronistas Frei Vicente do Salvador e Padre Fernão Cardim, registram a alegria dos silvícolas na época de S. João, por causa das fogueiras e das palmeiras que ornamentavam o ambiente.
No interior do Nordeste, muitos ainda se lembram das muitas superstições que eram iluminadas pelo clarão das fogueiras. Seja debaixo dos tetos de estuque como nas casas dos mais pobres, essas crenças abrigavam-se sem constrangimento. Havia muitas crenças que permeavam esse imaginário. Por exemplo, em louvor do Santo, plantava-se um dente de alho e se ele amanhecia grelado, obtinha-se o que se desejava. Outra crença consistia em colocar-se uma bacia d’água ao sereno : antes do nascer do sol se o indivíduo, mirando o rosto, não visse a sua sombra, era sinal de que não chegaria ao outro S. João. Uma outra superstição mais arraigada no meio do povo, era que as brasas da fogueira ficavam bentas; muitas pessoas as guardavam ou enviavam aos parentes ausentes , acreditando que quem as possuísse viveria mais um ano.
Cachoeira é a cidade das grandes tradições da Bahia. Lá não se sente limite entre as festas cívicas e as religiosas. Tudo tem o mesmo ponto de partida e semelhante ponto de chegada. Por isso mesmo, ela tem condições de, ao lado dos festejos cercados com as bandas que preenchem o roteiro junino,não deixar que se perca o fio da tradição que está lá tão presente, mesmo que em alguns aspectos, em estado de hibernação.
Por ser esse centro de cultura no Recôncavo Baiano, é que foi aprovado , por iniciativa da Deputada Lídice da Mata, um Projeto que torna essa cidade a capital da Bahia, em cada 25 de Junho, que corresponde ao 2 de Julho cachoeirano . Nesse dia o Governador do Estado despacha lá, participa de eventos culturais, de sessão na Câmara, e haverá até um Te Deum, na igreja Matriz, em ação de graças pela vocação libertária dessa Cidade Heróica.
Pessoalmente, estou engajado na criação da Casa do Samba-de-Roda de Cachoeira. Dentre os mais famosos da cidade, está o chamado “Suerdick”, que foi organizado pela matriarca Dona Dalva há quase 50 anos. O Prefeito ficou sensível a esse Projeto e doou a casa que está ao lado do Arquivo Público para aí se realizar esse Projeto e os sambas-de-roda da cidade poderem ser abrigados. Essa casa é histórica pois foi lá que nasceu Teixeira de Freitas, o jurista cachoeirano, que dá nome ao Foro da cidade.
Todos esperamos o apoio do Governador, através dos setores correspondentes de incentivo à cultura. Certamente a 1ª Dama ( que não gosta de ser assim chamada), visitará esse sobrado, e se engajará na obtenção dos recursos para tal Projeto chegar a um final feliz.
O IPAC já colheu os dados necessários para elaborar um Projeto de Restauração dessa casa, através dos seus arquitetos e técnicos. Isso tudo enche de expectativas as pessoas interessadas, nesse caso particular, as sambadoras e sambadores ligadas ao Projeto de D. Dalva, que vem mantendo acesa essa bandeira de uma tradição que tão bem representa os valores dessa terra.
Todos contamos com a intercessão de S. João por Cachoeira, nesse dia em que o governo está tão próximo dessa cidade. Ele é Profeta, isto é, aquele que fala mais alto, e mostra os caminhos. Foi ele que, apontando para Cristo , disse:”Eis o Cordeiro de Deus, o que tira o pecado mundo”. Mas esse filho de Isabel e Zacarias era muito humilde, por isso disse :”Eu sou apenas a voz, ele é que é a palavra”. E ainda completa :”Eu não sou digno de desatar suas sandálias”.
quinta-feira, 12 de junho de 2008
ISTO É SANTO AMARO E O 14 DE JUNHO
A primeira parte do título em epígrafe – Isto é Santo Amaro - refere-se a um dos livros da famosa professora Zilda Paim que há décadas conserva um farto material sobre essa histórica cidade. Desde fotos do final do século passado, bandeiras dos antigos Ternos carnavalescos, a jornais do início do século XX, alguns bastante danificados, livros, e o santinho da 1ª comunhão de sua mãe, realizada no Colégio das Sacramentinas e que fora escrito em francês. Ela escreveu outros livros, também pintou algumas imagens da antiga Santo Amaro, bem em estilo naif – são cenas que ela conheceu bem de perto, como, por exemplo, o bonde puxado por burros.
Santo Amaro, alem de ser famosa por causa da bela igreja-catedral, a da Senhora da Purificação, deixou uma marca histórica relacionada com as lutas travadas em favos da Independência.
O 14 de junho é a data magna da cidade, pois é considerado o primeiro vagido em terras baianas na luta pela emancipação política. Em face da carta dirigida pelos deputados baianos, às municipalidades da Província da Bahia, foi exatamente a Vila de Santo Amaro escolhida para que, por sua Câmara, fossem delineados os planos para a revolução nacionalista.
O clero, a nobreza,os militares, os homens dignos da Vila, enfim , o povo responderam, através do 14 de Junho, à consulta dos deputados às cortes de Lisboa, sobre o melhor caminho para organizar o Brasil..
Theodoro Sampaio, em conferência proferida em Santo Amaro a 14 de junho de 1922 disse:”Pensar,portanto, em independência nacional entre baianos, nessa época era o mesmo que consultar o voto decisivo do elemento agrário do Recôncavo, pois que nele é que estava a força, a cultura, a riqueza”.
A Carta de Santo Amaro dá definições a propósito da Independência : um poder executivo brasileiro com o seu soberano, um tribunal superior brasileiro, um Exército brasileiro,uma Armada brasileira, uma Constituição. Todos esses elementos convergiriam para um futuro da pátria com uma universidade e mais tolerância religiosa.
Para os santamarenses esse documento é motivo de orgulho pois representa uma precedência de altíssima honra nos fatos da Independência. Esse foi um elemento de peso para que no Recôncavo as vilas se pronunciassem pela aclamação de D. Pedro. Dessa forma, em 29 de junho daquele ano, D. Pedro foi aclamado em Santo Amaro, numa histórica sessão do Senado da Câmara.
Na apresentação desse livro é mostrado que a luta da professora Zilda Paim , como foi a de José Silveira, não tem sido fácil, pois eles não se conformam em ver adormecer uma terra e uma gente de tanta história e vigor. A 1ª edição desse livro, já em 1969, prefaciado por Plínio de Almeida, diz que esse é um livro “onde há muito amor, muita pesquisa, e acima de tudo, uma larga e compacta dose de civismo (...) Ele nos diz quanto essa cidade foi no cenário nacional e na região gorda do Recôncavo, onde o massapé permite que os canaviais brotem, para enfeitar uma paisagem de maviosas colinas cortadas por alguns rios de águas lentas, rios que outrora faziam girar rodas de engenho, em cujas casas grandes as aias usavam comumente vestidos de seda e gorgorão cobertos de brincos de ouro legítimo, num verdadeiro fausto demonstrativo de uma época de fartura daqueles que Santo Amaro soube ter e aproveitar”.
O calendário cívico-religioso de Santo Amaro gira em torno de duas datas : o 14 de Junho, pelos motivos expostos e o 2 de Fevereiro, dia da Purificação.O templo que abriga essa devoção foi inaugurado com uma suntuosa celebração no dia 18 de outubro de 1700. O Arcebispo da época, D. João Franco de Oliveira, coroava, juntamente com os fiéis de então, exatos 90 anos de trabalho consumidos na construção daquele templo.
Que a Senhora da Purificação proteja essa cidade, cheia de história e heroísmo, velando pelos seus filhos, sobretudo os mais pobres.
Concluo com algumas estrofes do Hino de autoria de Carlos Sepúlveda:
“Oh! Virgem Mãe, puríssima,
Dai-nos paz e proteção ,
Para que possamos
Chegar ao vosso coração.
Sois nossa esperança,
Refúgio e consolação,
No perigo e na bonança,
Doce Mãe da Purificação”.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Santo Antõnio, de Lisboa e de Pádua
Sebastião Heber
Não é questão de dupla nacionalidade, mas a verdade é que ele nasceu em Lisboa e se tornou conhecido em Pádua. E por isso mesmo é que os portugueses celebram sua memória de forma entusiástica, decorando com bandeirinhas e cravos as janelas das casas dos moradores das ruas que estão em torno do Castelo S. Jorge, nas proximidades da casa em que ele nasceu.
O mês de junho está aí e com ele começam os belos festejos juninos que relembram a nossa infância, sobretudo para aqueles que a viveram no interior. As festas populares e folclóricas incorrem sempre no perigo de serem “seqüestradas” pelo consumo desenfreado, tirando delas a poesia e, sobretudo, sua mística. É importante preservá-las para que a nossa identidade não se perca e os valores culturais permeiem as programações turísticas.
Antônio, além de ser eminentemente popular, casamenteiro, ligado ao nosso folclore – diz-se, com propriedade, que após S. Francisco, ele é o mais importante dentre os discípulos do pobre de Assis - , ele é também um dos poucos que têm o título de Doutor da Igreja.
Nasceu em Lisboa em 1195, e foi , primeiramente, cônego regular de em Coimbra, mas Fernando muda de nome, tornando-se franciscano, onde ele responde à sua vocação missionária. Após um período em Marrocos, onde sua saúde não permite que ele lá permaneça, ele vai para Assis, considerado o foco da vida franciscana. Sua fama de bom pregador e de controversista,sua cultura teológica,o ardor de sua fé, tudo o leva a uma intensa vida pastoral, marcada pela pregação, onde ele, primeiramente combate os cátaros ou albigenses, e depois , entre 1225 e 1227, na região do Midi da França (Toulouse, Limoges, Montpellier, regiões atingidas pelos albigenses). O pensamento dessa doutrina foi considerado herético pois professa um dualismo entre o bem e o mal. A matéria, e, portanto o corpo, é um mal, e isso chegou até à recusa da Encarnação de Jesus Cristo – o Filho de Deus não poderia ter assumido um corpo humano pois esse é sede do mal. Desse modo, no seu purismo ( cátaro significa “puro”), eles chegaram a condenar até o casamento. Em face do relachamento dos cristãos e, sobretudo do clero, essa concepção se espalhou entre os fiéis resultando numa luta da hierarquia da Igreja contra essa concepção, sobretudo pela pregação.
Após essa fase, ele se retira à Itália do Norte, em Pádua onde morre aos 36 anos, em 1231 , tendo adquirido uma grande fama popular de santidade, que o fez ser canonizado apenas um ano após sua morte, pelo Papa Gregório IX. Seu túmulo logo se torna um lugar de peregrinação intensamente freqüentado. Em 1946 o Papa Pio XII declara-o como Doutor da Igreja.
Logo ele entra no imaginário popular, tornando-o muito venerado na sua terra natal. É de lá que chega até nós toda uma devoção popular que o faz ser o protetor dos objetos perdidos. A origem desse crença vem do fato de um noviço ter deixado o convento levando (roubando) o seu breviário ( livro de orações com os salmos). O santo fica preocupado, pois lá tinha anotações preciosas – e, de fato , o noviço retorna para devolver o livro ao santo.
Santo Antônio é, muitas vezes, representado com um lírio ou um livro, símbolo do seu conhecimento e do seu amor pela Sagrada Escritura . Outras vezes, tem ao seu lado, um asno, pois, de acordo com a sagrada lenda, o animal se ajoelhou diante do Santíssimo Sacramento levado pelo Santo, quando a presença real de Cristo na Hóstia havia sido contestada por um interlocutor, que passou a crer naquele mistério cristão.
Passo a citar um trecho de um sermão do santo, intitulado “É viva a palavra quando são as obras que falam” :
“Quem está cheio do Espírito santo fala várias línguas. Elas são os vários testemunhos sobre Cristo, a saber, a humildade, a pobreza, a obediência; falamos essas línguas quando os outros as vêem em nós mesmos. É viva a palavra quando são as obras que falam, Cessem, peço, os discursos, falem as obras. Estamos saturados de palavras, mas vazios de obras e por isso, amaldiçoados pelo Senhor, porque Ele amaldiçoa a figueira em que não encontrara frutos, apenas folhas. Que faça o que prega, diz Gregório. Em vão expõe o conhecimento da lei quem destrói a doutrina por suas obras. Falemos, portanto, em conformidade com o que o espírito Santo nos conceder falar”.
Sebastião Heber.Prof. de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do IGHB, da Academia Mater Salvatoris, da Associação Nacional de Interpretação do Patrimônio. Colabora nas Paróquias da Vitória e de S. Pedro.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
O JARDIM DO ÉDEN DA AMAZÔNIA CHORA A PERDA DA MINISTRA MARINA SILVA
Sebastião Heber
A Teologia Bíblica coloca em relevo a importância, no livro do Gênesis, da responsabilidade daquele primeiro casal simbólico, em cultivar o Jardim do Paraíso. Como se torna atual essa necessidade! A imprensa, escrita e falada, tem trazido em manchete a preocupação internacional com esse Paraíso Perdido, mas sempre achado pelos especuladores, que é a Amazônia.Nesse clima de tensão, sai a Ministra Marina, aquela que é considerada mais do que uma madrinha daquela região, mas alguém que tem uma identificação total com a causa da natureza.
A sociedade moderna está vivendo um momento histórico que exige repensar a sua relação com o ambiente, com o outro e consigo mesmo..São dicotomias sempre atuais nas nossas preocupações.Uma característica das lutas em defesa do meio ambiente é a sua estreita vinculação com a dignidade da vida material do ser humano.
O famoso antropólogo Franz Boas ( que foi professor de Gilberto Freyre) lembra que todas a formas da cultura humana derivam do ambiente geográfico em que vivem os homens. E Edgard Morin, preocupado com a preservação da natureza, diz que o destino do homem foi, em grande parte, o de se proteger da natureza e dela tirar a sua subsistência. Continua ainda ele:”Hoje, o homem, que pretendeu ser o amo e senhor da natureza, descobre a sua tirania; e descobre também que a natureza pode morrer (...). Mas é preciso também, para libertar o homem, libertar a natureza, ameaçada pelo gigantismo e a brutalidade da indústria”.
O Brasil é, inegavelmente, um dos países mais ricos do mundo em termos ambientais: possui em seus 8.511.996 km2 cerca de 1/3 das florestas tropicais existentes no planeta e o maior sistema fluvial do mundo ( para confirmar isso, basta citar que 2/3 da vasta bacia fluvial amazônica estão no território brasileiro). Dentro dessa grandiosidade ambiental, podemos citar o Pantanal como o maior complexo de savana, que contem a mais rica diversidade biológica e as maiores extensões de mangue do mundo.
Mas ao lado dessa riqueza natural, é no Brasil que se encontram os centros mais poluídos do mundo, como conseqüência de uma industrialização crescente e desordenada, gerando, contraditoriamente, imensos focos de miséria e uma ocupação desordenada. A Mata Atlântica tem sido sistematicamente destruída há mais de um século – basta ver aqui bem perto de nós, o que sobrou em torno da Avenida Paralela – e é, hoje, o segundo bioma florestal mais devastado do mundo. Ela perdeu áreas originais consideráveis e resiste à ação do homem através de pequenas porções de florestas, que são de crucial importância para a proteção dos mananciais, prevenção da erosão e conservação das espécies raras da região.
No dia 16/05/2008, a ex-ministra Marina Silva foi elogiada publicamente pelo Frei Beto, no Jornal “Folha de S. Paulo” num artigo que, alem de ser contundente, não foi menos verdadeiro: “Na Esplanada dos Ministérios, como Ministra do Meio Ambiente, tu eras a Amazônia cabocla, indígena, mulher. Muitas vezes, ao ouvir tua voz clamar no deserto, perguntei-me, até quando agüentarias. Não te merece um governo que se cerca de latifundiários e cúmplices do massacre dos ianomâmis. Não te merecem aqueles que miram impassíveis os densos rolos de fumaça volatilizando a nossa floresta para abrir espaço ao gado, à soja, à cana, ao corte irresponsável de madeiras nobres”.
Ele lembra ainda que ela fora excluída do Plano Amazônia Sustentável. A dúvida dele é a quem esse Plano irá beneficiar : aos ribeirinhos, aos povos indígenas, aos caiçaras,aos seringueiros, ou às madeireiras,e às empresas do agronegócio ? São perguntas sem respostas formais. O que ele lamenta é que ela não foi munida de recursos necessários à execução do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento da Amazônia Legal, aprovado pelo governo em 2004.
E ele continua fazendo denúncias que clamam aos céus : “Entre 1990 e 2006, a área de cultivo de soja na Amazônia se expandiu ao ritmo médio de 18% ao ano. O rebanho se multiplicou 11% ao ano. Os satélites do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, INPE, detectaram entre agosto e dezembro 2007, a derrubada de 3.235 km2 de floresta. Como os satélites só captam cerca de 40% da área devastada, o próprio governo estima que 7 mil km2 tenham sido desmatados”.
Na Antiguidade, a preocupação com as questões do meio ambiente já se encontram expressas no Pentateuco, um dos livros integrantes da Torá ou Lei bíblica,quando, no relato da Criação, vemos Deus Criador recomendar aos primeiros homens que preservem o mundo no qual Êle os colocou . Podemos dizer que as primeiras noções sobre biodiversidade e a preservação das espécies animais são encontradas quando Noé leva para a Arca os casais de cada espécie. É ainda na referida Arca que aparecem os primeiros registros sobre lixo na medida em que um andar inteiro era reservado para essa utilização. No livro do Deuteronômio, cap. 20, 19, já aparece a proibição do corte de árvores frutíferas: “Quando tiveres que sitiar uma cidade durante muitos dias , antes de atacá-la e tomá-la, não deves abater as suas árvores a golpes de machado – alimentar-te-ás delas sem cortá-las”.
Por todas essas razões expostas, fica patente a necessidade de preservar a natureza, até por instinto de sobrevivência do homem.
E disse Deus no Gênesis :”Façam-se as árvores – e Ele viu que tudo era bom”.
Sebastião Heber.Prof. de Antropologia da Uneb, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do IGHB, da Academia Mater Salvatoris, da Associação Nacional de Interpretação do Patrimônio.Colabora nas Paróquias da Vitória e de S. Pedro.
quarta-feira, 21 de maio de 2008
FESTA DE CORPUS CHRISTI O SENTIDO DE UMA PRESENÇA
Sebastião Heber
Hoje a Igreja Católica celebra o dia de Corpus Christi, que é uma retomada da 5ª f. Santa, dia em que foi instituída a Eucaristia.Além da celebração da Missa Solene, haverá procissões em todos os recantos , dioceses, paróquias e capelas.Alguns lugares mantêm a tradição de colocar imensos tapetes de flores para a hora da procissão com a Hóstia consagrada,isto é, o Santíssimo Sacramento. Os católicos , e vários outros ritos, ligados ou não a Roma, ortodoxos, bizantinos, coptas, melquitas,etc.,acreditam na presença real. Os anglicanos têm uma reverência especial para esse momento litúrgico.Os irmãos evangélicos, das igrejas históricos têm um grande respeito à Ceia do Senhor, assim como os grupos constituídos mais recentemente.Os luteranos, continuam, de alguma forma, a crença do seu fundador. Para Lutero a Eucaristia consistia na presença real “in actu”, isto, enquanto dura a celebração há “a presença real”, como a denominam os católicos – após a Ceia, aqueles elementos não conservam mais a dimensão espiritual que tivera na celebração.
De qualquer forma, o Cristo , “o pão vivo descido do céu”, pode ser encontrado através de diversas “memórias”, e assim, o “fazei isto em memória de mim”, continua de forma litúrgica e sacramental, alcançando-nos nos nossos dias.Durante a celebração litúrgica faz-se a memória de Jesus, de sua vida, de sua morte, de sua ressurreição, e assim, Ele se torna presente no meio de todos, crentes e descrentes.
É interessante observar que na grande parte das religiões conhecidas, o alimento tem uma preponderância. Ele é sinal de vida. Os judeus, no Antigo Testamento, além de oferecerem as primícias da terra e dos rebanhos ao Senhor Deus Criador, após a libertação do Egito, começaram a celebrar a Páscoa (Pessach em hebraico), isto, a passagem salvadora de Javé que os libertara do inimigo.No cristianismo, a Última Ceia de Cristo , o pão e o vinho consagrados, são o centro de toda a sacramentalidade. Os primeiros cristãos chamavam-na de “bonum maximum”, isto é, o bem maior que temos, ou que Cristo deixara aos seus seguidores. A Teologia clássica diz que “ a Igreja faz a Eucaristia e a Eucaristia faz a Igreja”. Também é bom lembrar da sacralidade que representa o alimento no candomblé, religião tão próxima da formação religiosa de muitos brasileiros e tão bem representada aqui na Bahia. Lá a comida do homem torna-se comida de santo, e repetindo o antropólogo Raul Lody, “santo também come”.Assisti numa 6ª f. Santa no Candomblé do Pai Edinho de Maragogipe, a uma refeição sagrada em homenagem ao Cristo Morto. Que ambiente místico, impregnado de oração. Todas as comidas baianas foram apresentadas, além do bacalhau. Tudo era realizado num clima de silêncio. Todos sentados numa grande mesa, mas como eram muitos os filhos-de-santo, havia outros sentados pelo chão. No final da mesa havia um pequeno altar com a cruz, um cálice de vidro com vinho, pão e trigo e a Bíblia. No final da refeição, o Babalorixá fez uma prece em ioruba, acompanhado pelos presentes. Quando todos terminaram, a comida que sobrou foi envolvida com as toalhas da mesa e levada em procissão para ser “sepultada” no bosque que fica ao lado do Terreiro. Dessa forma, eles reverenciaram, com a comida,a memória do Corpo do Senhor Morto.
Na tradição cristã, a Eucaristia é chamada por várias designações : Ceia do Senhor, Fração do Pão,Assembléia Eucarística, Memorial, Santo Sacrifício,Santa e Divina Liturgia, Comunhão e Santa Missa.
Com relação à história, paradoxalmente, essa festa foi instituída numa época em que se comungava pouco. A primeira celebração data de 1246 em Liège, na Bélgica e foi o Papa Urbano IV, que, pela Bula “Transiturus”, de 11 /08/1264, estendeu a toda a Igreja essa festa .Ptolomeu di Lucca afirma que foi Santo Tomás de Aquino quem redigiu, a pedido do Papa, os textos da Missa dessa festa. Ao longo do século XIV a data tomou um grande desenvolvimento na cristandade e criou-se o costume de fazer uma grande procissão, começando o costume de se colocar a Hóstia consagrada em relicários, que se chamaram de ostensórios.
A oração, chamada de “Seqüência”, cantada nesse dia, diz em alguns dos seus muitos versos:
“Quão solene a festa, o dia , que da santa Eucaristia, nos recorda a instituição / O que Cristo faz na Ceia, manda à Igreja que o rodeia, repeti-lo , até voltar / Faz-se carne o pão de trigo,faz-se sangue o vinho amigo, deve o crer todo cristão / Pão e vinho , eis o que vemos, mas ao Cristo é que nós temos, em tão ínfimos sinais”.
Sebastião Heber.Prof. da Uneb, da Faculdade 2 de Julho e da Cairu. Membro do IGHB, da Academia Mater Salvatoris, da Associação Nacional de Interpretação do Patrimônio.Colabora nas Paróquias da Vitória e de S. Pedro.
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